O texto que abaixo transcrevo foi escrito por Ary Veiga Sanhudo e integra o seu livro "Porto Alegre, Crônicas da Minha Cidade".
Observe-se que o autor faz referência a uma praça de nome "Dom João Becker", "a única existente no bairro".
Não conheço esta praça, apesar de residir no bairro há mais de vinte anos. Não sei onde está a lacuna, pois o autor tem credibilidade, tendo sido um dos grandes historiadores e pesquisadores da história de Porto Alegre. Se alguém puder me "socorrer", ficarei grato.
Como Vereador, é de sua autoria a Lei nº 2022, de 7 de dezembro de 1959, que oficializou a delimitação e denominação dos bairros de nossa Capital.
Embora tentado a "corrigir" algumas palavras ou citações, optei, finalmente, em respeito ao Autor, por conservar o texto em sua integridade original, sem nenhuma modificação.
O livro é de 1975, ou seja, de trinta e quatro anos passados. Como se vê, não descreve com fidelidade o que é a Vila Nova atual. Muita coisa, porém, ainda se preserva muito próximo do que Veiga Sanhudo testemunhou.
Evandro
VILLANOVA D'ITALIA
"Para falar deste bairro da cidade, vali-me dos comentários feitos precisamente há cinqüenta anos por um viajante italiano que aqui esteve e escreveu um ótimo e ilustrado livro, "Um viaggio a Rio Grande Del Sud", e que, melhor do que ninguém, dá-me uma visão magnífica do que era e como começou "la colonia di Villanova d'Italia". O simples enunciado já nos oferece a razão da exuberância desta região e particularmente a pujança do progresso deste indiscutível celeiro da cidade.
Embora infelizmente ainda não tenha visitado a bela Itália, confesso enfeitiçado que a nossa Vila Nova, lugar tão perto desta grande cidade, hoje bairro incorporado ao seu acervo administrativo, tem na sua bucólica e pacífica paisagem um quê desses pequenos lugarejos da grande nação latina.
É assim que, às vezes, quando passo por lá, contemplo meditativo esse sítio, pois parece-me ver "um paese" com todo o seu peculiar mundo de aldeia, fatalmente reafirmado nas atitudes dos meus patrícios que por ali distraem-se atirando as "boccias".
Vittorio Buccelli, que é o viajante acima assinalado, depois de nos dizer que a colônia foi fundada em 1894 por um grupo de imigrantes trentinos e mantuanos, exclama com justiça, que é "regione che stá facendo meravigliosi progressi grazie al lavoro e all'energia precioza dei coloni italiani".
E se o ilustre visitante pudesse nos ver hoje, o que não diria? É bem provável, entanto, que a paisagem não haja mudado muito, mas a prosperidade e a riqueza do lugar o transformaram de fato, num jardim de delícia feito pelo braço laborioso do infatigável colono italiano, a quem o Rio Grande do Sul já deve muito.
Já naquele tempo assinalava-se a posição excepcional de Vicente Monteggia, um dos imigrantes que muito haviam laborado pela então pequena Vila Nova. Este vigoroso colono era grande proprietário e foi quem doara à coletividade local um ótimo terreno para que fosse construída uma escola e uma igreja.
A escola já está em outro lugar, mas a igreja e a atual casa paroquial estão assentadas nas terras desta benemérita doação.
Mas Vila Nova, como já disse, é o tipo de lugarejo atraente e impregnado de vida rural, mesmo depois de ter sido servido por modernos caminhos macadamizados. Assim, a velha e poeirenta estrada da Vila Nova é hoje a asfaltada avenida Vicente Monteggia, um dos mais diretos pontos de contato do bairro com o centro. Outras vias de acesso à Vila Nova, como as estradas João Vedana e João Salamoni, lembram também velhos lidadores do lugar, homens que com o seu suor e sacrifício ajudaram-no a tornar-se tão próspero como é na atualidade.
Se o aspecto urbanístico do lugar não mudou muito, pode-se, não obstante, apreciar melhoramentos de aparência geral. Os prognósticos da Vila Nova são sempre alvissareiros. Se é verdade que as pouquíssimas ruas do bairro ainda apresentam o seu estado primitivo, não se pode negar que ele tem uma bela praça – a Dom João Becker – ornada com boas árvores públicas que cruzam o lugar. É a única praça do bairro. Pode-se dizer ainda que, graças ao espírito laborioso dos moradores da Estrada Velha de Belém Velho – porque assim eram chamados os primitivos habitantes do lugar, antes da chegada dos imigrantes italianos -, a praga dos loteamentos ainda não se apossou dessa região.
Vila Nova, pois, a par do velho espírito "di frutti e di vigneti", ainda tem o dom de nos oferecer essas magníficas e opulentas Festas do Pêssego.
Quem ainda não se recreou, numa dessas ventosas tardes de primavera, na famosa Festa do Pêssego de Vila Nova?
Pois é qualquer coisa, desta cidade, que deve ser visto e saboreado. Digo saboreado, porque ninguém resistirá visitar as floridas tendas de frutas, sem deliciosamente saborear algum pêssego!
Vila Nova está ligada ao centro por uma linha de ônibus; desde há muito, entretanto, fala-se em levar até lá os nossos pesados, amarelos e famigerados bondes municipais!
Talvez seja este, ainda, um dos raros bairros de aspecto genuinamente rural da nossa capital."
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("Porto Alegre, Crônicas da Minha Cidade", páginas 183, 184 e 185, de Ary Veiga Sanhudo – Editora Movimento/IEL, Porto Alegre,1975)